terça-feira, 9 de setembro de 2008

crónicas de Barcelona (1)


Pelo que se me tem dado a ver e, principalmente, sentir, Espanha é, no Verão, um extenso forno natural. Barcelona não foge à regra se bem que beijada por uma banheira de águas quentes e muito pouco animadas para onde os locais convergem em grande número talvez na ilusão de deste modo fazerem praia.

Barcelona é também uma cidade fantástica e muito sedutora. Abundam as pessoas e nestas , a diversidade. Este pormenor não passou pela minha sensibilidade da maneira superficial como a visão daquele nudista idoso com o pénis coberto de tatuagens que se passeava pela Barceloneta . Com efeito pertenço a uma geração de preconceituosos.E talvez por isso achei altamente significativa e eventualmente excessiva a quantidade de hispânicos ( daqueles que remetem para o estereótipo do índio peruano) e também de asiáticos ( na várias versões dos vários sub-continentes em que o grande continente se divide )que comigo se cruzaram no metro, a cada esquina ou vindos do arvoredo espesso de Montjuich.

Vejamos: não é a visão que gera o preconceito; é o preconceito que gera a forma como se vê. E eu via-os sempre mal encarados,num alerta duvidoso, em busca da próxima vítima que podia ser eu. Talvez sem razão, não obstante ter , num desses dias de estada na capital da Catalunha, ficado sem a carteira, facto que, aliás, atribuo à minha distracção crónica que tantos dissabores me tem trazido.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

ciganos


Tenho muito presente na memória uma afirmação , curiosa e telegráfica e que eu ouvi, há uns anos atrás, da boca do então Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. Foi mais ou menos assim :

- Os ciganos têm primeiro de aprender a respeitar a sua própria dignidade para poderem depois respeitar a dignidade dos outros .

quarta-feira, 25 de junho de 2008

a escola real (X)


Nunca é demais avisar os Professores que, juram a pés juntos, têm sempre a cabeça no seu lugar : NUNCA PERCAM A CABEÇA ! Perder a cabeça é relativamente fácil, facilidade essa que nem sempre é óbvia, mas não sai barato e pode custar até milhões de coisas más, tão más que um tipo vai lamentar-se a vida toda.

"Il y a cinq mois, José Laboureur, professeur du collège Gilles-de-Chin de Berlaimont, dans le Nord, avait poussé contre une porte puis giflé un élève de 11 ans qui l'avait traité de "connard". Le père du mineur, gendarme, avait déposé plainte. Le professeur de technologie avait été placé en garde à vue pendant 24 heures, puis cité à comparaître pour "violences aggravées sur mineur". Son procès s'ouvre, mercredi 25 juin, devant le tribunal correctionnel d'Avesnes-sur-Helpe. "

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sábado, 21 de junho de 2008

desporto (IV)


Os sonhos são para mim um mistério absolutamente fascinante. Falo, claro, dos sonhos que temos a dormir, não daqueles, globalmente patetas, que a maioria das pessoas têm, acordadas, como por exemplo, conseguir a adivinhação dos números do euromilhões ou que poucas têm, como verem-se, um dia, a festejar a proibição da circulação automóvel na praia do Baleal, perto de Peniche.

Sonho muito pouco. E , do ponto de vista qualitativo, os meus sonhos deixam a desejar: contam-se, pelos dedos, os sonhos eróticos que tive , nos últimos anos. Mas sonho de vez em quando; como hoje. Foi um sonho que tem a ver com o tempo que vivemos. ( é engraçado como nos sonhos, sendo eles tão inexplicáveis, a respectiva narrativa, espaço e personagens contêm em si, geralmente factos e fenómenos plenos de contemporaneidade). Associei, desta vez, desporto - espectáculo, na sua componente de execução técnica com uma trama, que, parece-me, se desenvolveu numa fracção de segundo. Descobri isto depois de acordar, ou , talvez, concomitantemente com a consequência do sonho, não sei bem.

Explico: Dei, hoje, por mim ( já acordado?, ainda a sonhar?) descrevendo uma trajectória elíptica pelo espaço aéreo que envolve a minha cama e o chão, ao mesmo tempo que levava à prática um daqueles pontapés acrobáticos ( veja-se a imagem) em que um jogador pontapeia a bola, lateralmente, com as duas pernas no ar e acerta com ela dentro da baliza, com estrondo e arte. A arte não sei se aconteceu. O estrondo sim, porque foi testemunhado pela minha mulher: bati , ruidosamente com o joelho no chão ( e também com o corpo todo) e senti logo, bem acordado, uma violenta dor que ainda agora me faz hesitar entre ir ou não ir ao centro de saúde para que os profissionais digam de sua justiça.

Sou mais adepto do desporto-prática do que desporto-espectáculo. Muito mais. Mas parece-me que aquele Portugal – Alemanha de um dia de Junho em Basileia se constituiu como um selo no meu inconsciente ou no meu sub-consciente. O que, se assim fôr, atesta bem a força, enorme, que o fenómeno desportivo tem e toda a magia inerente ao quadro, aparentemente vulgar, em que vinte e dois jovens correm, desenfreadamente, atrás duma bola em busca de a colocar dentro de uma baliza.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

a morte saiu à rua...


Morreu um homem no meio da rua. Quis a Paula que eu me cruzasse com a morte do homem; quer dizer, sugeriu que eu aparasse a barba às 9H00 da manhã daquele dia porquanto já levava mais de outros quinze sem o fazer e o meu rosto evoluía já , do ponto de vista da expressão, do ar duro do Chuck Norris para a bonomia do Capitão Igloo.

Está bem de ver que o homem morreu bem perto da barbearia. Percebi-lhe, de imediato, o fim. E percebi-lhe também de imediato a causa do fim: um AVC dito hemorrágico; tinha o rosto cor de vinho. A multidão guardava já um silêncio inusual para um episódio de meio da rua, manhã cedo: o fascínio da morte instalara-se naquela gente.

Decidi fazer aquilo que constituía o motivo da minha presença ali. Entrei na barbearia , depois de me informarem que o INEM estava a caminho. Garanto que esqueci por minutos o episódio raro daquela morte em directo. Relembrei-o quando ouvi a sirene da ambulância. Imaginei então a cena. Confirmei o que imaginava , pouco depois. Os socorristas tinham arrastado o homem para o local exacto por onde eu teria de passar para poder sair da barbearia e procediam a manobras de reanimação, inúteis, como eles e nós bem o sabíamos. Saltei por cima do aparato e fixei então , primeiro, o rosto do defunto: quanta serenidade no rosto , quanta poesia naquele olhar fixo para lá do infinito. Um meio sorriso, belíssimo, completava o quadro. Fiz, depois, escorrer o olhar pelo resto do corpo do homem. E em resposta à massagem cardíaca que lhe era aplicada , o enorme volume do abdómen ganhava uma animação rítmica como se fosse uma gelatina, grande e alva.

Não me detive mais com o olhar e regressei pelo caminho de onde tinha vindo Fui o único. a multidão permanecia, certamente cogitante, claramente fascinada, respeitosamente silenciosa, como personagens de um grande exército como aquele que o chineses construíram e cujas figuras são feitas de terracota.

Mas a coreografia do abdómen volumoso do homem morto induziu em mim, desde esse momento e por largas horas, a reflexão abrangente sobre estilos de vida, sobre auto-destruição, sobre cozinha tradicional e aquela mais requintada, sobre sedentarismo e também lembrei os teóricos do vinho e da cerveja e a importância destes produtos na economia nacional e por fim a temática, ainda mais abrangente e muito filosófica sobre o morrer com saúde, tarde, do que sem ela. , cedo. Lembrei que corro que me farto e lembrei-me de fazer o elogio da magreza saudável que é a minha. À noite, com os filhos, fiz uma deriva científica sobre causas e efeitos dos AVC, acabando por fazer a pedagogia da alimentação racional e da actividade física regular.

E ia concluíndo pela evitabilidade da morte. Não cheguei a tanto.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

a escola real (IX)


O sol ilumina agora aquela árvore, verdíssima, que posso ver para lá das molduras em PVC, também elas verdes, que suportam as vidraças sobre cuja transparência me dou ao luxo quase pela primeira vez, este ano, de reflectir.

O sol ilumina a árvore, sim , mas interessa-me mais a metáfora desta iluminação; como metáfora é dizer que o sol ilumina os rostos, outrora tensos, outrora provocadores, do João e da Joana mas também do Tóni e da Indira Ghandi ( assim mesmo, no B.I.).

E hoje descobri sem esforço a estética inerente à simulação quase perfeita com que o Wilson se tem vindo a transformar em Lenny Kravitz; quer dizer, ele descobriu a descoberta que fiz e a cumplicidade entre nós escorreu com a facilidade que devia acontecer todos os dias.

Os sorrisos andam por ali, na versão menos forçada, isto é, naquela outra em tudo diferente da sorriso, versão do desencanto, ou da ironia ou até do cinismo que tem em si o timbre da precocidade.

Pudera.

As aulas acabaram por este ano, e a trégua – o desiderato essencial da nossa curta viagem – instalou-se para ficar, apenas enquanto a escola se vai esvaziando e as nuvens do Outono não se fizerem ouvir de novo.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

AS MINHAS 6 ( ALIÁS 7) CARACTERÍSTICAS


Pede-me a talentosíssima Ana ( agora em parceria com o polemista PSB ) que eu me defina em 6 palavras. Cruel desafio. Na solidão das minhas noites, nos diálogos em surdina que estabeleço com os meus botões, na intimidade do WC ( nu, em frente ao espelho ) tenho a melhor impressão de mim próprio e a pior das impressões do mundo todo, inteligível.No entanto, no palco em que ando todos os dias dou como inconfessáveis os defeitos com que me defino. E piores eles tendem a tornar-se , quanto mais a plateia - que as minhas confissões incompletas testemunha - se verga ao peso da admiração com que parece absorver o tamanho desamor que demonstro por mim próprio.

Por não querer fugir ao desafio pus-me a pensar um pouco sobre a questão e decidi abordá-la empreendendo uma fuga para a frente, buscando aquilo que é universal, em desfavor do pormenor que entroniza o santo ou lança o crápula nas profundezas do desprezo dos outros.

E foi assim que cheguei aos 7 ( mais um que 6 )pecados capitais que constitui uma crudelíssima classificação de vícios com a qual a Igreja pretende educar e proteger os seus cruéis crentes , no sentido de os afastar da hipótese de habitar, um dia, a cruel canícula do fogo eterno.

EIS OS PECADOS CAPITAIS:

VAIDADE
INVEJA
IRA
PREGUIÇA
AVAREZA
GULA
LUXÚRIA

E concluí o seguinte, não sem espanto : no deve e no haver dos pecados capitais que é uma espécie de orçamento infinito que vai sendo elaborado ao centésimo de segundo, e fazendo a prospectiva do julgamento final, em que numa escala de 0 a 20, o pecador terá de pelo menos conseguir a classificação de 10 para se livrar já sabemos do quê, eu diria, em relação à minha pessoa que:

Andarei provavelmente por um suficiente ( 10-13) . Ficaria negativo no item preguiça, pelo que teria de me sujeitar a provas suplementares .

Antes que me lixe, já estou a tratar de subir a nota. Por isso, voltei!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

iberismo (I)

O iberismo que me vai tomando, alastra agora à coisa literária e aos contactos humanos. São áreas que me seduzem e com as quais gostaria, por isso, de ter um são e profícuo convívio. O problema é quando os desafios surgem e tenho de enfrentá-los. Como este, vindo do blogger Madrileño e meu recentíssimo amigo El Angel de Olavide.

Ei-lo:

" UN PASEO POR LISBOA DE LA MANO DE UN AMIGO LISBOETA

Hace posiblemente mas de 10 años que no visito Lisboa. Una ciudad que significa mucho para mi. Para las gentes de mi generación que tuvimos la oportunidad de vivir la revolución de los claveles. Admiramos la gentileza de los portugueses. Pasear por el Chiado, por Restauradores. Subir al barrio Alto y a Alfama. Ir a las adegas de fado. Al Sr. Vinho. Pararnos en la plaza de Rossio, en las terrazas y contemplar extasiados los grupos de africanos, la devoción de las gentes por el debate político en la calle.
Quiero volver a Lisboa una vez mas. Igual que otros muchos españoles y madrileños.
Pero esta vez lo voy a hacer de la mano de mi amigo Miguel. Él me va a dar pistas de por donde encaminar mis pasos. Va a contestar a mis preguntas. Va a recomendarnos donde comer. Donde tomar un café. Por que recorrido poder calzar nuestras zapatillas de correr al tiempo que conocemos la ciudad. En que museos e iglesias entrar.
Empiezan las preguntas a nuestro cicerone particular.
Miguel, recomiéndanos uno o dos recorridos a pie por la ciudad que nos sirvan para entender la historia de Lisboa.

-Los bares o cafés donde descansar del paseo
-Los museos que debemos visitar
-La mejor forma de movernos por la ciudad. Por ejemplo háblanos de los tranvías lisboetas. De las lineas mas turisticas.

Ahora paremos a comer. Que comemos, donde y a que precio. Háblanos del bacalao. De los vinos. Del bagazo.

Que música llevamos en nuestro MP3. Que pasó con Grándola y José Afonso. Por Madrid llegan muchas veces las grandes figuras del fado y de la canción popular portuguesa: Mariza, Dulce Pontes, Carlos do Carmo. Nos hemos enamorado con los discos de Amalia. Nos interesa mucho saber sobre la música portuguesa actual. De los clubs de fado.

Cuéntanos de alguna galería de arte o museo de arte moderno. Sobre la fundación Gulbenkian.

De los azulejos. De las tiendas donde comprar artesanías. De las cerámicas de Vista Alegre.
De los parques. De la famosa Estufa.

De Pombal y los años de la reconstrucción.

Dos excursiones desde Lisboa. Navegar en el río.

De la literatura portuguesa. De por que debemos seguir leyendo una y otra vez a Pessoa. Y a Eça de Queirós.

Y como final: ¿como sería posible que mañana portugueses y españoles nos conozcamos mejor?." (fim da missiva)

Ora, quero responder ao questionário em castellano e nesse particular dispenso qualquer tipo de ajuda - é uma incursão literário -linguística que de bom grado pretendo levar a cabo, sozinho - na ânsia, legítima, de um dia, evoluir do portuñol para o verdadeiro "ñol" sem "portu". Mas no resto do que é proposto, que aqui e ali está ancorado numa série de "clichés" que servem, também eles, de âncora a forasteiros, estou receptivo a sugestões, dicas e coisas do estilo que enriqueçam o que mais tarde se escreverá . A bem da imagem de uma Lisboa abrangente e sedutora.

terça-feira, 1 de abril de 2008

e ela a dar-lhe com o Eric Clapton ... (II)


Para a Vanessa, a informação que esta Layla me entusiasma mais. É mais "speedada" e tem a ajuda daquele baixista fantástico e do homem da percussão que é o mister ritmo. O preliminarzinho também ajuda à surpresa.

Aí vai ela, com uma roupagem eventualmente menos sensual.



p.s. - a da foto, ao lado do então insonso eric, é a bonita Patty, aliás "Layla".